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O que permanece, haja o que houver

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 31.12.10

 

Sim, o rio continua a navegar, agora mais calmo, mais parece um lago, quase nos podemos ver nesse espelho azulado. A Marilyn continua a cantar na sua viola para o rapazinho, e o Robert Mitchum ainda apanha peixes do rio, que à noite assa na fogueira onde também aquece o café. Por vezes conversam enquanto o rapazinho dorme, mas mais parece que desconversam. São assim tantas vezes os diálogos entre homens e mulheres. Porque será?

Gostava de vos falar de um filme que nos inspirasse a todos para entrar no ano que agora começa. Repetimos este ritual de passagem todos os anos, mas na verdade trata-se de uma continuidade, como este rio. De qualquer modo, insistimos em iniciar um ano novinho em folha, abrimos uma nova agenda, fazemos uma lista de coisas a mudar... E no entanto tudo depende da nossa convicção interior, aquela que nunca muda, a que permanece igual a si própria, a sensação de saber quem somos, haja o que houver.

Que filme nos inspira assim? A convicção interior? Tudo o que permanece? A ver se o descubro entretanto nos meus registos da memória. A tempo de entrar num novo ano que é apenas a continuidade do ano que hoje termina.

 

Aqui vai um filme que vi há cerca de um mês e que pode exemplificar, numa das suas personagens, essa permanência, esse saber quem se é, haja o que houver. Neste caso também, sobre os seus sentimentos.

Written On The Wind, de Douglas Sirk, revela-nos de novo um homem simples, leal, íntegro, e de novo num Rock Hudson que veste bem essa pele. Tal como em All That Heaven Allows, trata-se de uma personagem que se organiza de forma segura em valores da permanência: família, amizade, amor, lealdade. E para quem os sentimentos são simples e claros, o amor e a amizade são sempre acompanhados da lealdade. O amor só é revelado quando as circunstâncias o permitem e não antes, porque respeita quem ama. Não se trata, no entanto, de um amor cego, observa e avalia as qualidades da amada. A ingenuidade não faz parte da personagem, é perspicaz e responsável. E nunca abandona o amigo, só o enfrentando para a defender.

 

O filme também nos mostra como a segurança aparente de um império familiar não é base da permanência. A permanência não é exterior, é interior, está dentro de cada um de nós. Tudo o que se ergue à nossa volta pode derrocar, só a nossa convicção interior permanece, os valores essenciais. A família Hadley cai na auto-destruição e na solidão. Os nossos heróis descobrem a segurança em si próprios e um no outro.

 

A linguagem do filme é fluída, bem ritmada, e sempre elegante, à Douglas Sirk. Não há demasiada informação, apenas a essencial. É um drama recorrente. Cada personagem leva a sua bagagem simbólica: em Kyle, a dependência, a eterna adolescência, a imaturidade, a super-protecção, a perda de objectivos, o tédio de viver; em Marylee, a rejeição de Mitch por quem tem um amor obsessivo, a natureza caprichosa e infantil, a sedução, a sensualidade; em Lucy, a auto-confiança, a autonomia, o profissionalismo, a capacidade de afecto; e em Mitch, as tais qualidades da permanência referidas no início.

 

Que este e outros filmes vos inspirem, queridos Viajantes, a encarar cada Novo Ano com a convicção interior da vossa permanência essencial! Que encontrem essa segurança dentro de cada um de vós!

 

 

 

 

 

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publicado às 22:40

Os filmes muito arrumadinhos dos anos 50

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 07.08.09

 

Nesse fim de semana de excessos cinematograficos, ainda vi o Giant pela terceira ou quarta vez. Foi no sábado.

Gosto dos filmes dos anos 50 muito arrumadinhos e muito postal ilustrado como este Giant. vá-se lá saber porquê!

 

Aqui, são os actores Liz Taylor e James Dean que fazem o filme, que lhe dão a consistência e a atmosfera.

Jett ficará para sempre fascinado por ela, desde o primeiro momento em que a viu. Fará tudo para lhe agradar. Como um rapazinho, obedece-lhe mesmo em iniciativas que contradizem as suas convicções, a sua cultura texana: ajudar os empregados mexicanos nos cuidados de saúde, nas condições em que vivem. Esse é o primeiro choque cultural vivido por esta jovem mulher.

Sim, Jett pensa, erradamente, que é o dinheiro, ou a falta dele, o grande obstáculo para se aproximar dela, para a impressionar. Aquela mulher valoriza outras qualidades e dir-lho-á: O dinheiro não é assim tão importante...

Ao que ele responde, irónico: Não é importante para quem o tem...

Mas se é verdade que o dinheiro é importante sobretudo para quem não o tem, também é verdade que é nas outras qualidades que esta mulher fixa a sua vida ali, no meio daquela imensidão texana. É essa a sua razão de viver: cuidar da sua família, dos empregados e dos habitantes da aldeia.

Essa razão de viver passará para o seu único filho homem, que quer ser médico e exercer na aldeia. Essa ausência de preconceitos raciais passa, curiosamente, de mãe para filho. É assim que ele formará uma família-síntese de diversas culturas.

 

Apesar de Rock Hudson encaixar às mil maravilhas num filme assim arrumadinho dos anos 50, não me parece que exemplifique um espécimen masculino texano dos anos 20 aos anos 50. Não me parece. Mesmo mimado pela irmã mais velha, Luz... mas isso são convicções e cepticismos muito pessoais, pois procuro sempre a verosimilhança, a credibilidade das personagens.

Não me parece, pois, muito credível, que este homem, habituado a exercer o poder masculino, na ordem natural das coisas, acabe por ceder à influência da mulher, por mais que a ame. Embora a ideia dessa possibilidade me agrade.

 

Aliás, é quase reconfortante ver como, apesar da sua aparência frágil, esta jovem mulher parece conseguir domar o marido, aquele homem das cavernas, procurando construir uma relação igualitária no casal e o respeito pelas mulheres no círculo de amigos. Mas a verdade é que, quando são as próprias mulheres a submeter-se, como crianças, ao domínio masculino... já é mais difícil! Bem, conseguir sensibilizar o marido já me pareceu obra!

Mas em Cinema tudo é possível. E é bom que assim seja. Porque o Cinema, enquanto arte, influencia a vida. E de forma misteriosa e até imprevisível.

Sim, o cinema por vezes é a arte do impossível.

 

No final é esse texano, habituado a uma clara divisão de poderes e de tarefas, de classes sociais e de etnias, a defender direitos iguais para qualquer cidadão.

 

Sim, estes filmes arrumadinhos dos anos 50 começam no início, continuam no meio e terminam no final.

Neste caso, o final é simbólico: o futuro da América está no convívio pacífico e igualitário de homens e mulheres de diversas etnias. Duas crianças olham-nos directamente, em grande plano. Interessante imagem para concluir aquela saga familiar dos Benedict voltando-a para o futuro, não apenas o seu, mas de toda uma nação...

 

 

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publicado às 22:13

Nada substitui a companhia de outro ser humano

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 03.12.07

All that Heaven Allows. Uma mulher na sua viuvez conformada. Vários filhos. Família típica americana dos anos 50. Uma vida aparentemente perfeita. E uma empatia que nasce, a alegria de uma companhia com alguém genuíno, livre, que coloca os afectos à frente das convenções sociais.

Os filhos seguem as suas vidas, vão para a universidade. Ela fica sozinha. O egoísmo inconsciente da juventude! É mais confortável manter a mãe condicionada ao papel de mãe, mesmo já não precisando dela como antes. Irão insurgir-se contra o afecto da mãe por esse homem mais jovem. Irão querer substituir esse afecto, essa companhia, por uma televisão.

No filme, a mulher não desiste do afecto e da companhia. Até porque aprecia a companhia deste homem… calmo, afectuoso, sensato, culto. A casa reflecte isso mesmo, um espaço que acolhe, que aconchega. É essa ideia que fica a sobressair, a de uma companhia.

Magnífica previsão da solidão actual. Substituem-se pessoas, uma companhia, por uma televisão ou por um computador. Mas já não são apenas os mais velhos, os solitários sem alternativa. Agora são os próprios jovens a preferir o computador ao contacto humano.

 

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publicado às 15:42


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